A propósito do recente surto de infeções por hantavírus a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius, que despertou a atenção da imprensa internacional e do público, importa compreender melhor o que são os hantavírus e qual o verdadeiro risco associado a esta infeção.
Os hantavírus são vírus que habitualmente infetam roedores de forma persistente e assintomática. São zoonoses clássicas em que a infeção no homem ocorre por contacto com excreções, fezes e urina desses roedores. A transmissão entre humanos é excecional, praticamente apenas documentada com o hantavírus Andes e em situações de contacto íntimo com um indivíduo sintomático.
Após um período de incubação que pode ser prolongado, a doença caracteriza-se por febre alta e alteração importante da permeabilidade capilar, com lesão renal aguda e hemorragias (febre hemorrágica com síndrome renal pelos vírus Hantaan e Seoul, endémica na Ásia e Europa) ou envolvimento pulmonar (síndrome pulmonar por hantavírus, endémica no continente americano).
A mortalidade pode ser bastante elevada, sobretudo nas formas pulmonares, podendo atingir 30–50%, dependendo da estirpe e da capacidade de prestação de cuidados de suporte, que constituem o único tratamento.
Em Portugal, a hantavirose é bastante rara, sendo uma doença de zonas rurais. Pode ser prevenida através de medidas como evitar varrer dejetos de roedores sem usar equipamento de proteção individual adequado (luvas e máscara de proteção FFP2 ou FFP3) e pulverizar os dejetos com uma mistura de água e lixívia para inativar eventuais agentes patogénicos.
Por tudo isto, a infeção por hantavírus não merece pânico, mas sim atenção, servindo de alerta para este tipo de viroses emergentes, cuja incidência tende a aumentar devido ao desequilíbrio ecológico.
Tiago Marques| Especialista de Doenças Infecto-Contagiosas | HSM-ULSSM.
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